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Águas Lindas entra no período de estiagem sob risco de desabastecimento

Os pontos críticos são os setores Barragens l e lll, Águas Bonitas l, Jardim América l e lV, Setores lX, X e Xl e entrada do Setor ll.

ÁGUAS LINDAS DE GOIÁS — O período de estiagem chegou a Águas Lindas de Goiás acompanhado de um velho problema que volta a preocupar moradores, autoridades e técnicos do setor de saneamento: a capacidade do sistema de abastecimento de água para atender uma cidade que cresceu muito além das projeções utilizadas em planejamentos anteriores.

A situação é considerada delicada. Estimativas obtidas pela reportagem apontam que entre 10% e 15% dos moradores atendidos pelo sistema poderão enfrentar, em algum momento deste período de estiagem, interrupções ou redução no fornecimento de água tratada.

Em termos absolutos, a estimativa trabalhada pelas fontes chega a aproximadamente 50 mil pessoas potencialmente atingidas.

O número ganha ainda mais peso quando se considera a dimensão da rede de abastecimento. Segundo informação obtida pela reportagem junto a uma fonte da própria Saneago, o município já ultrapassou a marca de 110 mil ligações de água.

Isso demonstra que a dimensão da demanda por abastecimento em Águas Lindas é muito superior àquela que pode ser compreendida apenas a partir das estimativas demográficas oficiais.

Cidade cresceu e a demanda por água também

O Censo 2022 do IBGE registrou 225.693 habitantes em Águas Lindas. Entretanto, dados mais recentes utilizados em bases de saneamento trabalham com população de referência de 230.595 habitantes. Ao mesmo tempo, o número de ligações de água informado pela Saneago supera 110 mil.

Mais do que uma discussão estatística, a diferença evidencia um dos principais desafios enfrentados pelo município: a infraestrutura precisa acompanhar uma cidade que se expandiu rapidamente e que possui uma demanda crescente por água tratada.

A própria Saneago já reconheceu oficialmente a fragilidade do modelo atual.

Em plano de racionamento elaborado para Águas Lindas, a companhia informou que o abastecimento do município é baseado em poços tubulares profundos e registrou a existência de 113 poços, com capacidade produtiva de 777,92 litros por segundo.

O documento é direto ao apontar que os poços apresentavam redução de vazão e que, diante do crescimento do consumo durante períodos de estiagem, a produção disponível poderia não ser suficiente para atender toda a população.

Ou seja: o risco de falta de água não é uma novidade provocada exclusivamente pela estiagem de 2026. É um problema estrutural que se agrava quando chega o período de seca.

Saneago corre contra o tempo com 12 novos poços

Para enfrentar a situação emergencial, a principal medida adotada pela Saneago neste momento é a ampliação da capacidade de produção por meio da perfuração de novos poços.

Segundo fonte da própria companhia ouvida pela reportagem, 12 novos poços estão sendo perfurados em setores estratégicos de Águas Lindas de Goiás.

A expectativa é que, depois de concluídos, testados e interligados ao sistema de abastecimento, esses novos pontos de captação possam beneficiar aproximadamente 10 mil pessoas.

A medida representa um reforço importante, mas não elimina o problema.

Se a estimativa de aproximadamente 50 mil moradores sujeitos a algum nível de desabastecimento se confirmar, os novos poços atenderiam diretamente apenas uma parcela desse contingente.

Em outras palavras, a solução emergencial pode reduzir a pressão sobre o sistema, mas não tem capacidade, sozinha, de resolver a crise.

A própria Saneago anunciou em 2026 que vem acelerando a perfuração de poços tubulares profundos em diversos municípios goianos, entre eles Águas Lindas, como estratégia para ampliar a disponibilidade hídrica e reforçar a segurança operacional dos sistemas.

Balsa com draga ainda está longe de ser realidade

Outra medida discutida para reforçar o abastecimento seria a utilização de uma balsa equipada com draga, destinada a auxiliar na captação de água para o reservatório do Setor Coimbra.

A proposta, entretanto, ainda está distante de representar uma solução efetiva para a crise atual.

Segundo informações técnicas obtidas pela reportagem, a possibilidade de utilização da balsa ainda enfrenta dificuldades para sair do campo das alternativas estudadas e se transformar em uma operação concreta.

Na prática, portanto, a população não pode contar, neste momento, com essa alternativa como se ela já estivesse disponível.

É justamente esse ponto que aumenta a preocupação: enquanto os poços são uma medida emergencial em execução, a alternativa da balsa ainda depende de condições técnicas e operacionais que precisam ser definidas.

O problema é conhecido pela companhia

O cenário atual não surpreende quem acompanha o sistema de abastecimento de Águas Lindas.

Em seu plano de racionamento, a Saneago afirmou que o sistema baseado nos poços tubulares profundos sofre com redução de vazão e que o aumento do consumo durante períodos de temperaturas elevadas e estiagem pode comprometer o abastecimento.

A companhia também destacou a necessidade de preservar as áreas de recarga dos aquíferos utilizados para abastecimento público.

O alerta é particularmente importante porque, em um sistema dependente de água subterrânea, a capacidade de produção dos poços está diretamente relacionada às condições dos aquíferos e à disponibilidade de água.

A solução definitiva está estimada em R$ 136 milhões

Enquanto a Saneago tenta resolver a emergência com novos poços, uma solução estrutural para aumentar significativamente a segurança hídrica do município depende de uma obra de grande porte.

Os estudos para implantação de uma adutora destinada a transportar água da Estação de Tratamento de Água de Ceilândia, no Distrito Federal, até os reservatórios de Águas Lindas, já estariam concluídos.

O investimento estimado é de aproximadamente R$ 136 milhões.

O problema é o prazo.

Segundo informações obtidas pela reportagem, a previsão é que a obra somente seja licitada em 2027.

Se esse cronograma for mantido, a população terá de atravessar pelo menos mais um período de estiagem dependendo essencialmente da capacidade dos poços e de soluções emergenciais.

A diferença entre as duas estratégias é evidente.

Os novos poços podem produzir resultados no curto prazo e aliviar o sistema em determinadas regiões. A adutora, por outro lado, representaria uma mudança estrutural na forma como Águas Lindas recebe água e poderia reduzir a dependência exclusiva dos aquíferos.

Mais de duas décadas de concessão

O problema também precisa ser analisado à luz da história do saneamento no município.

O sistema de água e esgoto de Águas Lindas é administrado pelo Consórcio Águas Lindas, formado por Saneago e Caesb, cuja estrutura foi constituída em 7 de abril de 2003.

A concessão foi estabelecida pelo período de 31 anos, com possibilidade de renovação por igual período.

Ao longo dessas duas décadas, a cidade cresceu de maneira acelerada, pressionando a infraestrutura de saneamento.

A própria Saneago mantém Águas Lindas entre os municípios relevantes de sua carteira de contratos. No primeiro trimestre de 2026, o município representava 1,53% da receita líquida da companhia entre suas maiores receitas municipais.

A pergunta que fica é: os poços serão suficientes?

A questão central para os próximos meses é saber se as medidas emergenciais conseguirão acompanhar a demanda.

A perfuração dos 12 poços é uma resposta concreta e já reconhecida pela própria Saneago como parte do esforço para reforçar a segurança hídrica do município.

Mas, considerando a informação de que eles deverão beneficiar cerca de 10 mil pessoas, o alcance da medida parece limitado diante de um contingente estimado em até 50 mil moradores que poderá enfrentar algum tipo de interrupção no fornecimento.

Isso significa que, mesmo depois da conclusão das novas captações, milhares de famílias poderão continuar expostas ao risco de falta de água durante a estiagem.

Prefeito cobra solução e população espera resultado

A preocupação também chegou ao gabinete do prefeito Dr. Lucas Antonietti, que recebeu da direção da Saneago informações sobre as medidas destinadas a evitar um agravamento da crise.

O desafio para a administração municipal, entretanto, é acompanhar de perto a execução das medidas prometidas pela companhia e cobrar prazos, resultados e transparência.

Para a população, pouco importa quantos poços serão perfurados ou quantos projetos estarão em estudo se a água não chegar às torneiras.

É por isso que o período de estiagem de 2026 será, na prática, um teste para a capacidade de resposta do sistema de abastecimento de Águas Lindas.

Uma crise que não pode ser tratada apenas como problema da seca

O que está acontecendo em Águas Lindas vai além da tradicional falta de chuva.

A estiagem funciona como um gatilho que expõe uma fragilidade estrutural: uma cidade que cresceu rapidamente, possui mais de 110 mil ligações de água e continua dependente de um sistema baseado majoritariamente na produção de poços.

A própria Saneago já reconheceu, em documento oficial, que os 113 poços então existentes não eram suficientes para garantir o abastecimento em determinadas condições de consumo e disponibilidade hídrica.

Agora, a companhia tenta ganhar tempo com 12 novas captações.

A população, entretanto, espera mais do que uma solução temporária.

Espera que os projetos de maior porte saiam do papel, que a adutora seja efetivamente licitada e construída e que Águas Lindas finalmente tenha um sistema de abastecimento compatível com o tamanho e com o ritmo de crescimento da cidade.

Porque, em Águas Lindas, a pergunta não é mais se a cidade precisa de mais água. A pergunta é quanto tempo ainda será necessário esperar para que a infraestrutura acompanhe a cidade que já existe.

João Alberto

Jornalista: DRT 08505/DF. Radialista, Escritor e Poeta


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