Grandes empresas fecham lojas, demitem e renegociam bilhões
Casas Bahia anuncia quase 300 lojas fechadas e cerca de 3 mil demissões, enquanto Raízen, Pão de Açúcar e Oncoclínicas enfrentam forte pressão financeira. Para empresários e economistas, juros elevados, endividamento, carga tributária pesada e problemas de gestão formam uma combinação perigosa para quem produz e emprega no Brasil.
O Brasil começa a assistir a uma cena que deveria preocupar muito mais do que os indicadores de Bolsa ou os discursos políticos: grandes empresas estão cortando custos, fechando unidades, demitindo trabalhadores e renegociando bilhões de reais em dívidas para continuar de pé.
O caso mais emblemático desta semana é o das Casas Bahia. A companhia pediu recuperação judicial com uma dívida declarada de R$ 17,3 bilhões, anunciou o fechamento de 298 lojas e a demissão de aproximadamente 3 mil funcionários. O grupo também registrou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, embora grande parte desse resultado negativo tenha sido provocada por efeitos contábeis e ajustes que não representam saída imediata de caixa.
A crise, portanto, não pode ser explicada por um único fator. A própria situação das Casas Bahia revela uma combinação de juros elevados, dificuldade de acesso ao crédito, endividamento, mudança no comportamento do consumidor e problemas de rentabilidade, além de decisões empresariais que precisam ser avaliadas pela própria companhia.
Mas há uma pergunta que não pode ser ignorada: por que tantas empresas estão encontrando dificuldade para sobreviver justamente em um país que arrecada cada vez mais?
O Brasil arrecada muito — e gasta muito
Dados divulgados em 2026 mostram que a carga tributária brasileira alcançou 32,4% do PIB em 2025, o equivalente a aproximadamente R$ 4,12 trilhões. É um peso enorme sobre empresas, trabalhadores e consumidores.
O problema não está apenas no tamanho da arrecadação, mas na relação entre aquilo que o cidadão paga e aquilo que recebe de volta em serviços públicos, infraestrutura, segurança, educação, saúde e ambiente de negócios.
É justamente aí que a discussão sobre a reforma tributária ganha importância.
A reforma aprovada pelo Congresso representa uma mudança estrutural importante no sistema de impostos, com a criação de um IVA dual e substituição gradual de tributos como PIS/Cofins, ICMS e ISS. A transição começa em 2026 e avança nos anos seguintes.
Mas existe uma diferença fundamental entre reformar a forma de cobrar impostos e reduzir o peso do Estado sobre a economia.
A grande questão que permanece é: o Brasil vai utilizar a reforma para simplificar o sistema e aumentar a eficiência ou apenas reorganizar a máquina de arrecadação?
Enquanto as empresas cortam, o Estado continua gastando
O debate fica ainda mais delicado quando se olha para o tamanho das despesas públicas.
A plataforma Gasto Brasil, lançada neste mês para permitir que o cidadão acompanhe os gastos dos governos, apontou que as despesas públicas primárias da União, estados, Distrito Federal e municípios somaram mais de R$ 3,2 trilhões em 2026, enquanto a arrecadação de impostos registrada na plataforma estava em torno de R$ 2,3 trilhões no mesmo período analisado.
O dado merece atenção, embora comparação entre gasto e arrecadação em um mesmo período não possa ser interpretada simplesmente como se todo gasto tivesse de ser coberto apenas pelos impostos daquele momento.
Ainda assim, ele expõe uma questão essencial: quanto custa manter a estrutura do Estado brasileiro e, principalmente, onde esse dinheiro está sendo gasto?
A discussão sobre transparência deixou de ser assunto exclusivo de especialistas. Ela interessa diretamente ao cidadão que paga imposto no supermercado, na conta de energia, no combustível, no telefone, no salário e praticamente em tudo que consome.
Juros altos: a conta que chega para empresas e famílias
Outro componente da equação é o custo do dinheiro.
A Selic permanece em patamar elevado, e o próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu recentemente que juros menores dependem de uma trajetória fiscal mais confiável e de maior disciplina nas contas públicas.
Quando os juros sobem, o efeito não fica restrito aos bancos.
Ele aparece no financiamento da casa própria, no cartão de crédito, no crediário, no capital de giro das empresas e na capacidade de investimento.
No varejo, o impacto é ainda mais evidente. A Casas Bahia é uma empresa historicamente ligada ao crédito ao consumidor. Se o consumidor compra menos e o custo para financiar a operação aumenta, a margem desaparece rapidamente.
Nos últimos dois anos e meio, grandes empresas brasileiras do varejo já reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas, segundo levantamento publicado nesta semana. Entre os casos estão Americanas, Casas Bahia, Grupo Pão de Açúcar, Polishop, Tok&Stok e Marabraz.
O fenômeno não se limita ao comércio.
Da energia ao agronegócio, ninguém está imune
A Raízen, uma das maiores empresas brasileiras de energia e bioenergia, fechou o segundo trimestre de 2026 com prejuízo de R$ 1,64 bilhão e dívida líquida de R$ 56,87 bilhões, enquanto avança em uma ampla reestruturação de seu portfólio e de seu endividamento.
Na área de saúde, a Oncoclínicas registrou prejuízo de R$ 275,3 milhões no segundo trimestre e iniciou negociações para reestruturar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas.
O Grupo Pão de Açúcar também entrou em processo de reestruturação financeira, envolvendo cerca de R$ 4,5 bilhões em obrigações financeiras sem garantia.
Já a Light, que passou por recuperação judicial, conseguiu melhorar seus indicadores operacionais no segundo trimestre de 2026 e anunciou avanços na sua reestruturação, mostrando que recuperação financeira também é possível quando há reorganização empresarial, capital e melhoria operacional.
Esses casos têm características diferentes e não podem ser colocados todos no mesmo saco. Há problemas de gestão, decisões equivocadas, mudanças tecnológicas, concorrência, endividamento, condições de mercado e fatores regulatórios.
Mas existe um elemento comum: o ambiente econômico brasileiro ficou caro demais para quem precisa investir, tomar crédito e manter grandes estruturas funcionando.
O paradoxo brasileiro
É aí que surge o grande paradoxo.
De um lado, o trabalhador e o empresário são pressionados por uma carga tributária elevada.
De outro, o consumidor enfrenta juros altos, inflação, crédito caro e endividamento.
E, no meio disso tudo, o Estado precisa financiar uma estrutura pública gigantesca, com despesas obrigatórias crescentes e uma dívida que também custa caro.
O resultado é um círculo vicioso:
o governo arrecada mais → aumenta a despesa → precisa financiar a dívida → os juros permanecem elevados → o crédito fica mais caro → empresas investem menos → consumidores compram menos → empresas demitem e fecham unidades → a economia perde dinamismo.
É claro que a realidade é muito mais complexa do que essa sequência. Mas o mecanismo ajuda a explicar por que o debate fiscal não pode ser tratado como uma disputa ideológica entre “gastar mais” ou “gastar menos”.
A questão é outra:
o Brasil está gastando bem?
Não basta arrecadar. É preciso entregar.
O cidadão brasileiro não necessariamente rejeita pagar impostos.
O que provoca indignação é pagar muito e continuar enfrentando problemas básicos de infraestrutura, saúde, segurança, mobilidade, saneamento e educação.
E esse problema existe nas três esferas de governo.
União, estados e municípios precisam responder não apenas quanto arrecadam, mas quanto gastam, onde gastam, por que gastam e qual resultado entregam.
Transparência não pode significar apenas colocar números em um portal eletrônico. Transparência de verdade é permitir que o cidadão compreenda o destino do dinheiro público e consiga identificar desperdícios, privilégios, contratos questionáveis e políticas que não produzem resultados.
A reforma que o Brasil realmente precisa
A reforma tributária pode ser importante, mas ela não deveria terminar na criação de novos impostos e novos mecanismos de arrecadação.
O Brasil precisa discutir também uma reforma do gasto público.
Precisa rever privilégios, combater desperdícios, melhorar a eficiência administrativa, avaliar subsídios, reduzir estruturas que não entregam resultados e estabelecer metas objetivas para cada grande despesa pública.
Também precisa criar condições para que empresas voltem a investir.
Porque quando uma grande companhia fecha uma loja, não desaparece apenas uma placa na fachada.
Desaparecem empregos.
Quando uma fábrica reduz investimentos, perde-se produção.
Quando uma empresa deixa de contratar, milhares de famílias sentem o efeito.
E quando pequenas empresas não conseguem sobreviver ao custo dos impostos, do crédito e da burocracia, o problema deixa de ser empresarial e passa a ser econômico e social.
