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Fragilidade no abastecimento em Águas Lindas aumenta pressão por adutora do Descoberto

Moradores do Jardim Brasília relatam mais de uma semana com problemas no fornecimento; Saneago confirma projeto de adutora de 22 quilômetros, mas licitação está prevista apenas para 2027

Águas Lindas de Goiás volta a enfrentar um problema que há anos incomoda a população e coloca em evidência uma questão estratégica para o futuro do município: a segurança do abastecimento de água.

Moradores da Quadra 60, no Jardim Brasília, relatam que estão há mais de uma semana enfrentando problemas no fornecimento de água. A situação, segundo os moradores, tem provocado transtornos para atividades básicas do dia a dia e reacende uma discussão que ultrapassa os limites de uma quadra ou de um bairro: até quando Águas Lindas continuará dependendo de um sistema que demonstra dificuldades para acompanhar o crescimento da cidade?

A resposta pode estar em uma obra que já saiu do campo da ideia e avançou para a fase de projeto.

Em nota, a Saneago informou que concluiu os estudos e projetos de engenharia para a construção de uma adutora de água tratada com aproximadamente 22 quilômetros de extensão, ligando a Estação de Tratamento de Água (ETA) Descoberto, em Ceilândia, ao sistema de abastecimento de Águas Lindas de Goiás.

Pelo projeto, a água captada na Barragem do Descoberto e tratada na ETA Descoberto será transportada até Águas Lindas, por meio da nova estrutura, que também contará com ramais de interligação aos reservatórios já existentes.

Segundo a companhia, a obra deverá aumentar a segurança operacional do sistema e reforçar a oferta de água tratada para a população.

O problema é o prazo.

De acordo com a Saneago, o empreendimento está atualmente na fase de elaboração do orçamento e preparação da contratação das obras. A licitação está prevista para o próximo ano.

É justamente nesse ponto que surge a pressão política que precisa ser colocada sobre a mesa.

Não é apenas uma obra: é segurança hídrica

Águas Lindas cresceu muito nas últimas décadas e hoje tem mais de 230 mil habitantes, segundo dados baseados no Censo 2022. O município possui uma cobertura de abastecimento por rede geral superior a 94% da população, mas ainda existem milhares de moradores que dependem de outras formas de acesso à água.

A expansão populacional aumenta, naturalmente, a demanda por água. E os episódios de desabastecimento mostram que ampliar a capacidade do sistema deixou de ser apenas uma questão de planejamento para se tornar uma necessidade concreta.

Não por acaso, a própria Agência Goiana de Regulação aprovou, em março deste ano, uma resolução relacionada ao plano de racionamento do sistema integrado de abastecimento de água de Águas Lindas de Goiás.

Ou seja: o problema da segurança hídrica do município está reconhecido institucionalmente.

E existe uma solução estrutural sendo preparada.

A água do Descoberto já está no planejamento

A relação entre Águas Lindas e a Barragem do Descoberto não é nova.

O município está localizado próximo ao reservatório e, desde a formação do Consórcio Águas Lindas, Saneago e Caesb trabalham conjuntamente na implantação da infraestrutura de saneamento da cidade.

Documentos oficiais mostram que o consórcio foi constituído em 2003 e tem participação de 50% da Saneago e 50% da Caesb, sendo a Saneago a empresa líder. Entre seus objetivos está justamente a implantação dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário de Águas Lindas.

A própria Prefeitura de Águas Lindas já registrava, anos atrás, a implantação de um sistema baseado na captação de água da Barragem do Descoberto, com estação de tratamento, estações elevatórias, adutoras e reservatórios.

Mais recentemente, documentos de planejamento hídrico do Distrito Federal passaram a considerar novas transferências de água para Águas Lindas, com etapas previstas a partir de 2029.

Portanto, não se trata de uma solução que surgiu agora. O que existe é uma necessidade antiga diante de uma cidade que continua crescendo.

Força-tarefa pela água

Diante desse cenário, talvez seja hora de uma mobilização institucional mais forte.

Prefeitura, Câmara Municipal, deputados estaduais e federais, governo de Goiás e representantes do Distrito Federal poderiam formar uma verdadeira força-tarefa pela segurança hídrica de Águas Lindas.

O objetivo não deveria ser simplesmente cobrar uma obra com discursos ou declarações políticas, mas buscar respostas concretas:

É possível antecipar a licitação?

O projeto pode ter seu cronograma acelerado?

Quais recursos serão necessários para executar os 22 quilômetros de adutora?

Existe possibilidade de contratação ou execução por etapas?

Qual é o cronograma real para que a água da ETA Descoberto chegue aos reservatórios de Águas Lindas?

E, principalmente: o que pode ser feito enquanto a grande obra não fica pronta para evitar que moradores continuem enfrentando períodos prolongados sem água?

Essas são perguntas que precisam ser respondidas pelo Consórcio Águas Lindas, pela Saneago, pela Caesb e também pelas autoridades políticas que representam o município.

O desafio é sair do emergencial para o definitivo

A Saneago tem realizado investimentos para ampliar a segurança do sistema de Águas Lindas. Documentos da companhia registram, por exemplo, obras de ampliação do sistema de abastecimento, incluindo novos centros de reservação e redes de distribuição.

Também houve, em 2026, avanço na perfuração de poços para reforçar a disponibilidade hídrica no município.

Essas medidas são importantes, mas têm caráter complementar diante do tamanho e do ritmo de crescimento de Águas Lindas.

A discussão que se apresenta agora é maior: qual será a fonte de água capaz de garantir o abastecimento do município nas próximas décadas?

A resposta apontada pelo próprio planejamento do sistema passa pela integração com o sistema produtor do Descoberto.

A população não pode esperar pelo próximo colapso

A reclamação dos moradores da Quadra 60 do Jardim Brasília é, portanto, mais do que um problema localizado.

É um alerta.

Quando uma cidade de mais de 230 mil habitantes enfrenta dificuldades prolongadas de abastecimento, a discussão precisa deixar de ser apenas sobre consertar uma bomba, recuperar um poço ou normalizar uma determinada rede.

É preciso pensar na cidade de amanhã.

A adutora de aproximadamente 22 quilômetros projetada pela Saneago pode representar uma mudança importante na segurança hídrica de Águas Lindas. Mas, para isso, será necessário transformar projeto em obra, orçamento em recurso e planejamento em execução.

Águas Lindas não precisa apenas que a água volte à torneira. Precisa ter a garantia de que ela continuará chegando.

E essa garantia passa, cada vez mais, pela capacidade das autoridades de cobrar, articular e acelerar a solução definitiva.

A pergunta agora não é se Águas Lindas precisa de mais segurança hídrica. Os fatos já responderam. A pergunta é: quanto tempo ainda será necessário esperar?

João Alberto

Jornalista: DRT 08505/DF. Radialista, Escritor e Poeta


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