Furacão Florence toca a terra na costa leste dos EUA

Milhares de famílias da Costa Leste foram para cidades do interior para se proteger: “O medo agora é voltar e nossa casa não estar lá”, disse uma moradora

furacão Florence tocou o solo na cidade norte-americana de Wrightsville Beach, na Carolina do Norte, com ventos de até 150 quilômetros por hora, nesta sexta-feira, 14, ameaçando milhões de pessoas com níveis recorde de precipitação e perigosas ondas. Os meteorologistas preveem que nos próximos dois ou três dias chova o equivalente a oito meses na região, com acumulações totais de chuva entre 50 e 76 centímetros. Mais de um milhão de pessoas receberam ordens para deixarem suas casas na costa da Carolina do Norte, Carolina do Sul e Virgínia. Cerca de 321 mil residências estão sem eletricidade, principalmente nos condados de New Hanover, Carteret, Onslow, Pender e Craven.

Pat Knight, de 77 anos, está nervosa. Depois de bombardear a recepcionista de um camping onde se aloja com perguntas sobre a devastação que espera do furacão, acende um cigarro. “É a primeira vez em 30 anos que temos que evacuar nossa casa. Foi muito difícil tomar a decisão. Mas você sabe, dá para construir edifícios, não pessoas”, diz, forçando-se a sorrir. A iminente chegada do ciclone à Costa Leste dos Estados Unidos obrigou que ela e seu marido deixassem sua casa em South Beach, na Carolina do Norte. O casal é uma das 180 famílias que desalojaram as praias para se refugiarem em Charlotte, uma cidade de costas para a orla.

O autódromo Charlotte Motor Speedway anunciou na terça-feira que abriria suas portas aos desabrigados. Desde então, diariamente chegam dezenas de trailers muito bem equipados e algumas famílias com barracas. A área gratuita está distante das instalações – playground, zona para cães, chuveiros –, por isso a maioria prefere pagar 30 dólares (126,20 reais) por noite, que incluem energia elétrica, wi-fi e outros benefícios. Pat Knight mostra orgulhosa o interior da sua casa sobre rodas: uma TV de plasma na sala, outra televisão no quarto, geladeira abarrotada de provisões e quatro poltronas de couro. “Tentei trazer todas as coisas valiosas”, conta emocionada, enquanto mostra os álbuns de fotos. “Espero que minha casa esteja de pé quando voltarmos, porque não é só minha casa, é meu lar”, diz entre lágrimas.

O Florence colocou 10 milhões de norte-americanos sob alerta de furacão ou tempestade. Embora na noite da quinta-feira tenha baixado um degrau e voltado à categoria 1 (na escala até 5), as autoridades não interpretam isso como um bom sinal. “Quanto maior e mais lenta é a tempestade, maior é a ameaça e o impacto, e isso é o que temos aqui”, alertou o diretor do Centro Nacional de Furacões, Ken Graham. Para Eddie Green, de 59 anos, a decisão de deixar sua casa não foi difícil, justamente pelo risco implicado em permanecer. “Era muito perigoso, toda minha vizinhança foi embora. Eu simplesmente retirei algumas coisas de valor, fechei com chave e vim com minha esposa e meus três cachorros”, conta, enquanto pega seus pertences da caminhonete: madeira, geradores elétricos, roupa… “Estou preparado para ver a pior tempestade da minha vida”, diz, tranquilo.

Uma mulher interrompe a conversa de um casal. Avisa que estão preparando um almoço na entrada do camping. “O que vai ter?”, pergunta ele. “Hambúrguer e informação sobre os eventos automobilísticos que teremos em breve”, responde ela, deixando entrever que nas catástrofes também há oportunidades comerciais. O casal convidado viajou cinco horas a partir de um pequeno povoado da Carolina do Sul. “Realmente não sabíamos aonde ir”, diz Jimmy Thomas, de 56 anos. Sua mulher está abalada. Cada vez que fala, não consegue terminar a frase por causa da angústia. Trouxeram seu cachorrinho, mas deixaram os dois gatos na casa. “Pensamos que se os trouxéssemos iam se perder.” Sua casa fica bem em frente à praia. “O medo agora é voltar e que nossa casa não esteja mais lá”, diz Tammy Thomas.

As perigosas ondas associadas à tempestade farão áreas geralmente secas perto da costa “serem alagadas pelo aumento do nível do mar”, que pode alcançar entre 2,7 e 4 metros de altura entre o Cabo Fear e o Cabo Lookout, com possíveis “ondas grandes e destruidoras”, ressaltaram os meteorologistas do CNH (Centro Nacional de Furacões).

Os mais velhos ainda se lembram do Hugo, que causou 34 mortes e prejuízos milionários em 1989.

João Alberto

Jornalista: DRT 0008505/DF. Radialista, Escritor e Poeta

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